Crítica | Alita Anjo de Combate

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Uma ciborgue é descoberta por um cientista. Ela não tem memórias de sua criação, mas possui grande conhecimento de artes marciais. Enquanto busca informações sobre seu passado, trabalha como caçadora de recompensas e descobre um interesse amoroso.

Por Átila Oliveira (*)

Terra, século XXVI. Num cenário pós-apocalíptico, em meio a um imenso ferro velho, um homem de meia idade encontra uma cabeça e parte do torso intactos; o que restou de uma ciborgue de aspecto juvenil. Assim começa a adaptação de Robert Rodriguez (produção e roteiro de James Cameron) do famoso mangá de Yukito Kihiro – que este que vos escreve já adianta em esclarecer que ainda não leu.

O homem da cena descrita acima é Dyson Ido, um renomado cibermédico, que usa seus conhecimentos para ajudar muitos dos ciborgues trabalhadores da decadente  Cidade de Ferro, que fica logo abaixo da enorme cidade flutuante Zalem, paraíso ultratecnológico, única do seu tipo que restou após uma enorme guerra (“A Queda”) ocorrida 300 anos antes. Entre um paciente e outro, Dr Ido também procura peças para a construção de novos itens.

Já não é novidade para os cinéfilos de plantão que esta produção é também um dos muitos testes de efeitos especiais para futuros e mais ambiciosos voos de Cameron – no caso os próximos filmes da franquia Avatar. E nesse ponto, podemos dizer que mais uma vez acertaram, ainda que com ressalvas. A edição de som e os efeitos sonoros ficaram muito bons, dignos dos maiores blockbusters. A ideia de uma protagonista totalmente digital, com um rosto que a diferencia dos humanos comuns e demais ciborgues da trama (incluindo enormes olhos em clara referência aos mangás), foi uma boa sacada dentro da proposta. O aspecto de Alita envolve toda a simbologia do seu significado  como personagem: ela é única, não há mais ninguém sequer semelhante, ao menos até aquele momento. No filme não fica claro, mas é dado a entender que apenas parte da cabeça (incluindo cérebro, olhos e, talvez, boca e língua) é o que restou de orgânico em Alita; tudo o mais é cibernético.

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Os efeitos visuais em sua maior parte são excelentes. Pode-se até dizer que estão dentro do “padrão Avatar”. Destaque para as cenas panorâmicas e de grandes alturas – o realismo das cenas envolvendo quedas é realmente impressionante. Se tiver a oportunidade de assistir em 3D ou IMAX, faça. Vale muito a pena. Contudo, a caracterização dos personagens ciborgues  em muitas cenas ficou um tanto plástica e artificial. Há enquadramentos onde a clara separação entre os corpos digitais e o rosto dos atores chega a ser vergonhosa.

Motorball, o grande esporte que move o mundo (e a única maneira, ao menos lícita, de se chegar à Zalem), é onde ocorre boa parte das cenas de ação e onde claramente a produção mais testou efeitos especiais. Trata-se de uma grande arena onde ciborgues dos mais diversos tipos se digladiam, com regras muito similares as das pistas de Hockey. Certamente empolgará os fãs de cenas de pancadaria regadas a efeitos digitais. O resultado é bastante agradável. E o Motorball até mereceria uma publicação de regras, à semelhança do Quadriball do mundo de Harry Potter.

Também merecem destaque as cenas de luta; muito bem coreografadas e sem os problemas tão comuns nos filmes de ação hollywoodianos dos últimos anos. Não há nelas aquela desonestidade do combo borrado/tremido/escuro/cortado, que caracteriza franquias como Transformes. Além disso, excetuando os saltos sobre-humanos, todas as técnicas mostradas pela protagonista e demais personagens lutadores são baseadas em estilos de luta do mundo real. A arte marcial de Alita é um estilo exclusivo de ciborgues do seu tipo, denominado Panzer Kunst. No filme ele é uma mistura de técnicas do Kenjutsu (a arte da espada japonesa) com estilos chineses; especialmente Wing Chun, Chin Na e Wu Shu. Um deleite para os praticantes e apreciadores de artes marciais.

O enredo funciona bem. A história é bem amarrada e contém poucos furos. Claro que isso se deve em grande parte ao riquíssimo cenário. A criação de um núcleo adolescente, que pratica uma versão “de rua” do Motorball (mistura de skatismo, patinação e basquete dos guetos americanos), não só acerta ao propor identificação com o principal público alvo, como funciona bem e cumpre o que propõe. Apenas o romance da protagonista com o esperto e ágil Hugo pode incomodar alguns. Particularmente achei desnecessário e clichê. E sim, há momentos em que acaba caindo na pieguice. Já o drama familiar de Ido, fundamental na trama, é explorado sem exageros.

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Os vilões são outro ponto negativo do filme. A grande maioria bem genéricos e nada carismáticos. Não há um grande vilão a ser combatido, que parece que ficou mesmo para uma quase certa continuação. A honrosa exceção é a cibermédica Dra Chirem, ex-esposa de Ido. Diferente dos demais, ela parece um ser humano com quem podemos cruzar em qualquer lugar. Seus interesses  são, se não justificáveis, ao menos compreensíveis. E apesar do pouco destaque a personagem, a atriz Jennifer Connelly (a voz da roupa do Aranha em De Volta ao Lar, Pastoral Americana e tantos outros filmes e que em breve poderá ser vista novamente em Top Gun: Maverick), dá um banho de interpretação.

Mas a coisa degringola mesmo depois que Alita, após sofrer uma mudança (sem spoilers… rs) se torna uma combatente invencível. Pra mim, o maior incômodo do filme. Ok, vemos isso em muitos filmes. Mas é uma grande preguiça do roteiro. Ainda mais quando é tão descarada.

Alita – Anjo de Combate é um divertido filme de ação e aventura. Cumpre o que propõe, sem nada de espetacular. Alguns pormenores relacionados a interação dos personagens e efeitos visuais podem incomodar aos mais exigentes. Mas certamente agradará ao público que procura ação e efeitos grandiosos. E um alerta importante: algumas  cenas mais violentas podem ser demais para os mais sensíveis. Vale a pena conferir, se você não espera nada profundo.

(*) Biólogo, professor, cinéfilo, cantor, viciado em café e com mais de vinte anos de experiência em artes marciais. Mas não sabe pilotar uma moto.

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