O Feminismo da Capitã Marvel

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pôster do filme “Capitã Marvel”, da Marvel Studios, lançado em 7 de Março de 2019

Não é novidade que muito se falou sobre o filme da Capitã Marvel, como o nome já explica, do Universo Marvel. Muito se falou e muito se odiou o filme sem que ele ao menos estivesse em cartaz, o que por sua vez gerou polêmicas de todos os tipos, principalmente envolvendo um velho conhecido das mulheres: o machismo. O que é ser uma mulher em fandoms nerds como Marvel, DC, Star Wars, vale um texto à parte, mas resumindo bem, é estar em um lugar no qual você precisa se esforçar um bocado para provar que merece estar ali, onde vai ser atacada gratuitamente uma série de vezes e, se se defender, corre o risco de ser taxada de histérica.

Opa, isso se parece um pouco com uma cena que aparece até no trailer de certo filme, não acham?

Eu tenho muito orgulho em dizer que, sim, Capitã Marvel é um filme que exalta feminismo – e diferente do que os nerds machistas de plantão acham, não, isso não torna o filme uma militância sem história e sem nexo. Ele agrega ao universo já constituído da Marvel, desenvolve personagens que ainda eram um tanto misteriosos e faz uma ponte muito boa para o que será Vingadores: Ultimato. Porém, hoje não vamos falar de como o filme se encaixa ou não na cronologia da Marvel, easter-eggs nem nada do tipo; vamos nos focar apenas no quanto ele pode, na minha opinião, ser considerado uma metáfora para o feminismo.

Já aviso aos internautas que esse texto contém spoilers, então é recomendável que assistam ao filme antes de ler. Acreditem, é por uma boa causa.

Começando pelo mais básico: Capitã Marvel é um filme não só de protagonista feminina, mas de coadjuvantes femininas que roubam a cena. Longe de mim tentar tirar o brilho de Nick Fury (Samuel L. Jackson), porque ele está ótimo o filme inteiro, mas o maior destaque com certeza vai para as mulheres. Não só pela protagonista que, logo nas primeiras cenas, nos é apresentada como uma guerreira Kree para lá de habilidosa e comprometida ao máximo com seu dever – isso sem falar nos superpoderes –, mas por outras personagens que sem poderes e sem nenhuma conexão com o universo fora da Terra, conseguem ser tão empoderadas quanto.

Deixando para falar mais tarde de Carol Danvers (Brie Larson), nossa querida Capitã Marvel, darei um destaque merecido a Maria Rambeau (Lashana Lynch), a melhor amiga de Carol; uma mulher negra, piloto de caça da Força Aérea americana, e mãe solteira. Além de ser exposta durante o filme a muitas situações com as quais nunca havia tido contato, e reagir muito bem, ela é um exemplo de empoderamento: o filme se passa na década de 90, época em que o racismo e o machismo ainda eram muito incontestados, e mesmo assim, Maria, contra todas as possibilidades, conseguiu se tornar uma piloto de caça e ao mesmo tempo cuidar de sua filha, Mônica, mostrando que a força e o comprometimento de uma mulher podem levá-la aonde ela quiser. Além disso, em todos os momentos, Maria se coloca ao lado de sua amiga e em proteção de sua filha, mostrando o poder da sororidade. É bem plausível dizer que Carol não teria conseguido sem ela.

Ah, mas Carol Danvers não é super poderosa? Sim, acreditem, ela é. Mas isso não faz com que ela não precise de apoio ou suporte de uma amiga, por exemplo, o que desbanca por completo a ideia na qual os fanboys tanto insistem de que ela é uma Mary Sue, uma personagem perfeita, sem falhas, que não precisa de ninguém e vai salvar o mundo sozinha e levar todo o crédito.

Vamos destacar um fato importante: embora Carol seja comprometida com seus deveres como guerreira Kree, ela não faz ideia de quem é ou de como foi parar ali. Isso torna a experiência de acompanhá-la no filme um tanto interessante, pois mesmo sendo forte, superpoderosa e segura de si, ela vive com a dúvida quanto a seu passado, que lhe causa conflitos, pesadelos e incertezas. Uma personagem muito mais humana que muitos heróis com menos poderes por aí. O mais interessante, no entanto, é que, se analisarmos detalhadamente sua trajetória, podemos perceber, como eu disse antes, uma metáfora para o feminismo.

Carol começa o filme com um dever bem claro a cumprir: servir com os guerreiros Kree, dever este estipulado pela Inteligência Suprema, uma espécie de energia superior que se comunica com todos do povo. Embora Carol não saiba por que esse é seu dever, e tenha dúvidas quanto a o que aconteceu para que ela estivesse ali, ela sabe que precisa cumpri-lo, e não irá se desviar dele. Os Kree lhe estimulam a esquecer o passado e controlar suas emoções e incríveis poderes. Até o momento em que situações alheias a seu controle ocorrem (ser capturada pelos Skrulls e acabar na Terra), mexem com sua cabeça e lhe despertam conflitos que, ela podia negar, mas estavam sempre em seu subconsciente. Por conta disso, Carol descobre que os Kree, na verdade, perseguem injustamente os Skrull, e que sabiam de seu passado o tempo todo, porém, não quiseram contar a ela, para poderem usá-la como melhor entendessem. Ao final, é claro, Carol se encontra com a Inteligência Suprema novamente, e esta tenta “colocá-la no devido lugar novamente”, jogando Carol contra suas memórias amargas do passado: de momentos em que homens não acreditaram nela e disseram que, onde quer que ela estivesse, não era lugar para uma garota. Mas Carol não se deixa vencer; ao invés disso, ela condiciona todo o sofrimento em seus poderes e se liberta da Inteligência Suprema com a belíssima frase “Eu estive lutando em desvantagem por muito tempo. O que acontece quando eu finalmente me liberto?”.

Talvez alguns também tenham percebido, mas a única coisa literal em toda essa história são as memórias de machismo que Carol possui. Porém, sua trajetória é a mesma de qualquer mulher que encontra seu próprio empoderamento e se livra de sentimentos como a culpa, a vergonha, padrões ao qual tentam condicioná-la e do seu próprio machismo, porque sim, mulheres também podem ser machistas. Historicamente, desde crianças, as mulheres sempre tiveram um dever: ser uma boa esposa e mãe. Mesmo sem saber por que estavam fazendo isso, elas cumpriam esse dever, com todos ao redor tentando condicioná-las a serem de determinada forma – forma essa na qual elas não poderiam se opor às obrigações que a sociedade lhes impunha. Mesmo hoje em dia, esse dever de ser mãe e esposa ainda permeia a vida de uma mulher, por meio de coisas simples como ganhar bonecas ao invés de outros brinquedos que estimulem algo além da vontade de ser mãe, precisar “se resguardar” e não poder viver uma liberdade sexual (ou viver, mas ser considerada vulgar), mas ao mesmo tempo, não poder ficar solteira por muito tempo sem ouvir as perguntas “Cadê o namorado? Quando vai casar?”, perguntas essas que os homens não escutam, pelo menos, não com essa frequência.

Porém, coisas acontecem na vida das mulheres, e podem acontecer em qualquer época. Coisas que fazem com que elas questionem por que esses padrões existem, e por que os estão seguindo. Isso é a desconstrução, um dos efeitos que o feminismo causa nas pessoas: o impulso a nos perguntarmos por que as coisas são como são para as mulheres, como elas poderiam ser diferentes, e o que é necessário fazer para que sejam diferentes. Após passarem por esse processo, as mulheres se dão conta de que muito do que viveram a vida toda não passa de uma grande mentira chamada padrões e convenções sociais, os quais muitos aqui na nossa terra sem alienígenas e superpoderes atribuem, também, a algo superior, como, por exemplo, religião.

A parte mais bonita dessa história toda, e aqui eu me refiro à da Capitã Marvel e a das mulheres no geral, é o momento em que tentamos nos libertar, mas arremessam machismo contra nós, seja com memórias, desencorajamento ou até coisas piores. Acho que esse foi o momento mais comovente da história de Carol Danvers para mim: quando ela se deu conta de que não era o que suas memórias mostravam. Que podia ser mais que isso. Embora a maioria das mulheres da minha geração tenham vivido o machismo desde a infância, que tenham sempre tentado nos dizer que não éramos capazes e que onde queríamos estar não era nosso lugar, nós conseguimos enxergar além do que nos disseram, e, assim, percebemos que de pequenas, indefesas e incapazes, não temos nada.

Afinal, nós estamos lutando em desvantagem não há anos, mas há séculos. E filmes como Capitã Marvel, que lacram e lucram até não poder mais, são só um pouco do que acontece quando nos libertamos.

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