Crítica | Legalidade

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Brasil, 1961. Quando Jânio Quadros renuncia à presidência do Brasil, o vice-presidente João Goulart torna-se o sucessor natural ao cargo. No entanto setores da sociedade, liderados pelos militares, clamavam pelo impedimento da posse de Jango, temerosos de suas posições de esquerda. Liderado por Leonel Brizola (Leonardo Machado), o movimento Legalidade é criado para garantir a posse do vice-presidente, colocando grande parte do Rio Grande do Sul contra o núcleo do exército. Em meio à turbulência política e social, um triângulo amoroso é formado entre Cecília (Cleo Pires), Luis Carlos (Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Henrique Ligabue).

Filmes históricos, principalmente com conteúdo nacional, costumam ser chatos. Por inúmeras razões, principalmente por enaltecer demais certas figuras.

Mas existem as exceções como Olga e o atual Legalidade.

O longa, último filme do ator Leonardo Machado, é uma mescla do que um filme deve e não deve ser.

A atuação de Leonardo Machado é sem dúvida incomparável. O ator conseguiu incorporar Leonel Brizola de forma única. Infelizmente o ator faleceu em setembro de 2018.

Legalidade é um filme com 3 histórias que se interligam em um tempo conturbado na política brasileira que trouxe a queda de Jango e o início da ditadura que durou até o final dos anos 1980 e que para alguns é algo que jamais existiu.

Por este motivo, uma delas, que a de Leonel Brizola, é rica em detalhes e na atuação de Leonardo, que praticamente leva o filme nas costas. Sua interpretação vai além e ele se torna não apenas o ex Governador do Rio Grande do Sul, mas nosso interlocutor histórico em mostrar que uma nação, assim como seus políticos e militares deveriam ter apenas um lado: o Brasil.

Tanto que em um de seus discursos, ele diz que não é nem americano ou comunista, ele é brasileiro. Uma ótima resposta para o atual cenário do país, que insiste em se dividir.

As outras duas, infelizmente se tornam apenas histórias. Os tramas continuam a colocar cenas desnecessárias de romance onde não deve existir. Não que o amor não exista, mas como acontece em uma delas, onde o mundo está acabando e o personagem precisa estar atento pois várias pessoas dependem dele, ele simplesmente deixa de o fazer, para ir fazer sexo com a personagem de Cleo.

Uma cena infelizmente negativa do filme, onde o conteúdo é deixado de lado para mostrar o romance dos personagens.

Por sinal, a personagem de Cleo, uma jornalista faz a ligação entre essas histórias, pois ela é mãe de uma outra, que em 2004 busca informações sobre ela. A história aqui deveria ter sido mais crítica ao abordar o desespero dos familiares em caçar dados sobre o que aconteceu com seus parentes no tempo da ditadura militar e não apenas focar em mostrar jornais antigos e várias caixas.

O espectador deixa de criar um elo emocional com estes personagens e em saber o que foi uma época em que as pessoas sumiam e até os dias de  hoje não se sabe nada a respeito delas.

Outro ponto que é positivo, é a discussão da identidade cultural, através do personagem vivido por Fernando Alves Pinto, que é um antropólogo. No início ele nos mostra várias facetas de uma sociedade que desconhecemos, que é a Tupi, abordando e mostrando que este povo só sobreviveu pois lutaram pelo que acreditaram e pela sua liberdade. Ele é rico em conteúdo e durante sua narrativa chegamos até a conhecer Che Guevara. Infelizmente ele se perde ao contracenar com a jornalista vivida por Cleo.

Ali o enredo se torna esquecível e todo o desespero nacional e das pessoas é jogada para segundo plano ao abordar o romance entre eles.

De qualquer forma, Legalidade é um bom filme quando não se pensa nestas partes e seu foco fica na luta política e social e ao mostrar que um acordo muitas vezes bem feito, acaba revelando-se um desastre que levou uma Nação a anos de ditadura e censura, que se tivesse continuado, não estaríamos aqui escrevendo esta crítica.

Legalidade leva 3,5 vidas de 5!

 

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