Dr. Sleep – Vampiros energéticos e fantasmas do passado

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Em tempos onde os livros de Stephen King estão ganhando reboots no cinema, o diretor Mike Flanagan assume a tarefa de adaptar Dr. Sleep, traduzido como Dr. Sono, no Brasil, para o cinema.
A inegável expectativa do público para uma continuação do aclamado “O Iluminado” pode não ser a melhor forma de observar este filme, e Mike faz um ótimo trabalho em contar a história de Dr. Sleep sem precisar que o público tenha visto “O Iluminado”, embora, com toda certeza, isso acrescente informações em algumas partes do filme.

O protagonista, Dan Torrance (Ewan McGregor) é o Danny de “O Iluminado”, agora adulto, e o tema sobre o “shining”, a “iluminação” é perfeitamente aceitável como uma evolução da mente humana, capaz de moldar a realidade e alterar a física ao redor, ao custo de ser verdadeiramente atraente aos sentidos dos espíritos dos mortos e de seres que precisam sugar a energia dos vivos para se manterem aqui.

“Prenda seus demónios em caixas, mas saiba que um dia eles voltam para te assombrar”. Essa é uma frase que tem total ligação com um dos focos da trama, e como tenho por objetivo não narrar a história do filme, mas abordar os simbolismos, digamos que todos nós mantemos nossos traumas e medos presos dentro das nossas mentes, apenas aguardando um momento ou gatilho para despertar.


“A religião não faz as pessoas serem boas, mas sim suas ações”. Dan inicia uma espécie de jornada do herói, mas não de forma forçada. Seu problema com álcool é justificado como uma forma de silenciar as vozes em sua mente, resultadas da “iluminação”, assim como a garota Abra Stone (Kyliegh Curran) tenta parecer sempre “normal” para os seus pais, com medo de ser dada como louca.

Dr. Sleep é sobre “Vampiros Energéticos”, sobre pessoas e forças, dentro e fora da nossa mente, em um “mundo voraz”, o tempo todo faminto, buscando comer o brilho daqueles que se destacam.

“As pessoas não tem mais vapor, não sei se são os celulares, a dieta ou o Netflix”. Essa frase dita por Crow Daddy (Zahn McClarnon), embora feita em total deboche, tem um significado muito grande para analisarmos o contexto do filme. O “steam”, também conhecido como “vapor” é a energia espiritual de uma pessoa, que lhe permite ser “iluminado”. Crow Daddy conversa com o expectador explicando que em nosso cotidiano não há alimento para o espírito, apenas futilidade que polui o nosso vapor.

Rose The Hat (Rebecca Ferguson) é um personagem cativante e verdadeiramente humano. Muitas vezes pensamos que um vilão precisa de uma grande motivação para cometer atos cruéis, mas desde o começo da trama percebemos que é apenas a ganância e a vontade de viver que motivam a crueldade de Rose durante o filme. Um aspecto extremamente humano, para um ser humano que tem como meta viver sugando a força de outras pessoas que são “iluminadas”.

Com isto entendemos que Dr. Sleep é sobre pessoas que tem um dom espiritual, a “iluminação”, lutando para não serem dadas como loucas, em um mundo onde cada vez menos nossa mente tem voz, e ao mesmo tempo, tendo de lidar com ataques energéticos e pessoas perversas que, mesmo após a morte, não vão deixar de lado essa sede por tirar dos outros as suas conquistas e méritos.

Dann é a prova disso, mudando sua opinião sobre como Abra deveria lidar com a iluminação dela, tendo sua redenção, trazendo conforto para pessoas a beira da morte, e aceitando seus fantasmas, que o aterrorizavam na infância, entendendo que é necessário lutar e verdadeiramente curar os nossos traumas, pois isso é o que verdadeiramente nos mata.

Se você espera um filme de terror, pode ter certeza que sua experiência será muito melhor do que a expectativa, e com certeza é um filme ideal para introduzir pessoas que não gostam de filmes que tem como premissa aterrorizar o expectador.

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