Crítica | Além da Fronteira

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É o Romeu e Julieta LGBT da atualidade e fora dos padrões hollywoodianos, é emocionante e cruel ao mesmo tempo

Foto de Além da Fronteira - Além da Fronteira : Foto Michael Aloni, Nicholas Jacob - AdoroCinema
Em Além da Fronteira Michael Aloni e Nicholas Jacob vivem um casal gay/ Reprodução

Barreiras não são conhecidas pelo amor. Mas elas existem. Em alguns lugares, de forma muito mais presente que em outros. Out In The Dark conta a história de amor construído entre dois jovens que se encontram numa noite qualquer, como tantos outros jovens. E que acabam desafiando as diversas fronteiras que existem ao redor para tentar viver este amor quase impossível. Uma forma muito diferente de ver a situação entre Israel e Palestina. Acima de tudo, uma narrativa universal que aborda outros lados de uma sociedade perdida em sua própria crueldade e perversidade.

Além da Fronteira usa como pano de fundo a história de Romeu e Julieta, colocando no lugar dos personagens principais um Israelense e um Palestino. A trama gira em torno de Nimr (Nicholas Jacob), um rapaz palestino que, ao sair uma noite em Tel Aviv acaba conhecendo Roy Schaeffer (Michael Aloni) um advogado competente e que no decorrer da trama eles acabam se encontrando em Israel. E depois que Nimr consegue uma licença temporária de estudante que o permite atravessar legalmente a fronteira, eles passam mais tempos juntos.

O principal problema do casal é a homossexualidade. Uma cena que choca muito é o espancamento e assassinato do personagem Mustafá na frente de Nimr. Numa sociedade homofóbica, cis, hétero, corrupta, o maior problema é o amor entre dois homens. Nimr e Roy vão desenhando a sua relação e o filme aborda essa construção de uma forma muito natural. O telespectador acaba torcendo para o final feliz, mas esperar isso de uma trama assim é uma utopia.

Descobrimos que o irmão de Nimr faz parte de um grupo terrorista palestino e começa a guardar armas na própria casa da família. Ninguém tem ciência disso, apenas Nimr. Além disso, no primeiro encontro com a família de Roy, fica evidente a relutância do pai e da mãe (principalmente) em relação ao namorado palestino do filho. A partir daí uma luta pela sobrevivência desse amor passa a embalar o drama de 96 minutos.

A produção constrói muito bem a vida de Nimr e o fato de que sua família não pode, em hipótese alguma, saber sobre sua homossexualidade, pois isso levaria à morte do rapaz pelas mãos dos próprios palestinos e além disso, a tensão gira em torno do futuro de Nimr que está na balança, devido ao fato de ter perdido a licença para atravessar a fronteira. E a cada minuto adiante, a própria vida do menino fica em risco.

De forma semelhante ao que acontece com Simon (Com amor, Simon), o segredo de Nimr é exposto para sua família e diferente do acolhimento que Simon recebeu de sua família, Nimr acaba sendo expulso de casa e chantageado pela Agencia de Segurança que o transforma num fugitivo perigoso. A perversidade é evidente. Um governo que deveria proteger seus cidadãos, faz o contrário.

Diferente de “Azul É A Cor Mais Quente” que chocou devido as suas cenas de sexo explícito entre duas mulheres, em Além da fronteira, o sexo é filmado de modo distante e rápido, e há um excesso de pudor que leva, por exemplo, os dois namorados a mergulharem de cueca em uma piscina, para evitar maiores constrangimentos ao público. A sensação de intimidade transmitida pelos atores também passa longe da cumplicidade existente entre Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos.

Governos e religiões dividem o mundo e as pessoas, mas o amor verdadeiro une a quem abre as portas para ele.

A fotografia tem uma paleta azulada que em certos momentos nos remete a tristeza dos personagens. Em momentos felizes, um tom mais iluminado e até mesmo uma cor mais quente como o amarelo é usado. Percebemos que muitas vezes a câmera na mão e planos fechados que sugerem a gradual sensação de aprisionamento do personagem e trazem suspense à obra. Nesse sentido, o diretor Michael Mayer soube fazer um bom trabalho.

A trilha sonora é quase que totalmente pensada para as cenas de tensão e de certo modo, não houve ousadia, sendo que é um elemento que ajuda a compor a essência da obra. O maniqueísmo é inexistente no longa que retrata a neutralidade tanto de Israel quanto de Palestina. Não há lado bom e ruim, tudo permanece naquela área cinzenta, sem dualidades. Esse fator é ainda mais ampliado pela semelhança entre Roy e Nimr – muitas vezes parecem pertencentes ao mesmo povo.

Algo que dá um caráter humano a um conflito de fundo político é a sensação de deslocamento constante e de insegurança dos personagens. O diretor Mayer não buscou contar a história do conflito, mas a de pessoas apaixonadas que brigam pela sua identidade e um ponto positivo é a abordagem de temas como “lealdade e relações familiares”. Com um fim trágico, o romance não deixa a desejar no quesito da tensão. É um bom filme para levantar questionamentos em relação a homofobia e o caso Israel x Palestina. É uma produção bem elaborada, porém, com algumas falhas, mas sem se perder no meio da trama.

Além da Fronteira leva 3,5 vidas de um gatinho budista.

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