“Star Wars: Phasma” – Empoderamento Feminino e Histórias Incríveis

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capa do livro “Phasma”, da escritora Delilah S Dawson, publicado em 2017

Como uma fã jovem, mas que cresceu assistindo Star Wars, acho que a sessão de cinema mais empolgante em que já fui foi justamente a pré-estreia d’O Despertar Da Força em 2015. Foi uma experiência incrível ver um filme novo de Star Wars na minha geração, e adicionar à lista de personagens com quem eu já tinha uma forte conexão, Rey, Finn, General Hux e Kylo Ren, principalmente o último. E em meio ao forte interesse nos novos protagonistas, visto que o filme deixava muitas coisas em aberto, uma figura em especial ficou tatuada na minha curiosidade: um stormtrooper de armadura brilhante e capa, que, para minha deliciosa surpresa, era uma mulher.

Acho que já ficou claro que eu era uma fã sem qualquer tipo de redes sociais na época, e, portanto, não tinha a menor noção do Universo Expandido de Star Wars. O único livro da saga que eu já tinha visto fora de uma estante da Livraria Cultura era Kenobi (atualmente Legends), que certo dia havia dado junto a meu irmão de presente ao meu pai, que nos apresentou a saga. Descobri o mundo maravilhoso do Universo Expandido após Os Últimos Jedi, por meio d’O Legado De Sangue, e foi depois dele que, em um grupo de fãs (do qual comecei a fazer depois de ver o Episódio VIII), ouvi falar que havia um livro sobre a personagem que tanto havia me intrigado ainda em 2015.

Comprei meu exemplar de “Phasma”, escrito por Delilah S. Dawson (a qual também tem um conto em “Star Wars – From A Certain Point Of View”), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional aqui em São Paulo, pela bagatela de R$ 70,00 (permaneço sem comentários a respeito do preço de livros importados nesse país). Era o último da livraria, segundo o vendedor, o qual também me perguntou se eu gostava de outros livros de Star Wars, e se ia ler aquele por conta de algum clube de leitura, ao que respondi “não, eu só queria saber a história dela mesmo”. Desconfio que ele me achou um pouco estranha, visto que o livro tinha, arredondando, 400 páginas (isso em inglês, língua na qual os livros acabam sendo um pouco mais curtos que em português). Quando saí da livraria, no intervalo entre minha faculdade e meu estágio, lembro que acreditei que ficaria pelo menos uns dois meses ocupada com o livro.

Eu nunca na minha vida estive tão terminantemente errada.

Comecei a ler no dia seguinte, não me lembro exatamente a circunstância, e acho que isso foi porque, logo no primeiro capítulo, o livro já desperta a curiosidade do leitor ao não começar apresentando a protagonista, Capitã Phasma. Ao invés disso, a primeira personagem com quem temos contato é Vi Moradi, uma espiã da Resistência. Vale lembrar que nem a própria escritora sabe ao certo quando “Phasma” se passa na cronologia; o que se sabe é que é entre Legado de Sangue e O Despertar Da Força, o que é uma ótima pedida para os fãs que têm interesse em saber como o final d’O Retorno De Jedi desembocou no Episódio VII. Voltando a Vi Moradi, ela nos é apresentada enquanto retorna de uma missão importante: descobrir o passado da misteriosa Capitã Phasma da Primeira Ordem, sobre o qual ninguém sabia até então, e, como diz a própria Vi “descobrir como monstros se tornaram monstros não necessariamente nos ajuda a derrotar os monstros”. Porém, após essa fala, Vi é surpreendida pela Absolution, nave da Primeira Ordem, acaba sendo capturada e levada para interrogatório pelo até então responsável pela dita nave, Capitão Cardinal, ainda desconhecido pelos fãs. E o motivo pelo qual ele decide interrogar Vi é, no mínimo, suspeito: para que ela conte o que sabe sobre a Capitã Phasma. Depois disso, o livro começa a transitar entre a época em que começa e os acontecimentos narrados por Vi, que se passam dez anos antes, no inóspito planeta Parnassos.

Não que seja a primeira aparição do planeta no Cânone; ele foi mencionado em um dos livros da trilogia Marcas Da Guerra, porém é apenas uma menção, sem qualquer profundidade. Bom, em “Phasma” saberemos muito bem como é a vida em Parnassos, um planeta que está, no mínimo, morto há muito tempo – sem tecnologia, sem contato com o resto da galáxia e sem perspectiva de futuro. É nesse ambiente que vive Phasma, com idade entre vinte e vinte e cinco anos, e sem o posto que todos conhecemos. Pelo menos até que uma nave cai em Parnassos, carregando uma figura já muito desgostada pela maioria dos leitores do Universo Expandido de Star Wars: General Brendol Hux.

Aos que não sabem, ele é o pai do General (Armitage) Hux, que vemos nos novos filmes, e já apareceu em Marcas Da Guerra e foi mencionado em Legado De Sangue. Uma coisa interessante sobre “Phasma” é a quantidade de referências presentes no livro, algumas das quais eu mesma não peguei, por não ter lido ainda a maioria dos livros Cânone na época. Há uma riqueza muito grande de detalhes na história, e isso abre espaço para que os fãs-enciclopédias de plantão cacem easter-eggs o tempo todo, tanto no “passado” (Phasma em Parnassos) quanto no “presente” (Vi Moradi no interrogatório com Capitão Cardinal).

Eu poderia separar o livro em pontos positivos e negativos, mas, sendo sincera, o único ponto mais ou menos negativo que consegui encontrar é que, se você não tem muito interesse na Primeira Ordem e no que a cerca, ou é muito apegado aos personagens principais da saga, talvez você fique um pouquinho entediado durante a leitura, porque, bem, 400 páginas não é pouco. Mas mesmo aqueles que não são lá grandes fãs da Primeira Ordem, ou os que estão longe de ver a Phasma como uma personagem importante em Star Wars, podem aproveitar – e muito – a história. Na verdade, acho bem difícil (e, se acontecer, estranho) alguém terminar de ler o livro e continuar com o velho (e irritante) comentário “Phasma é o Bobba Fett da nova geração”.

Acho que todos já entenderam que o livro é bom, mas vamos aqui pontuar algumas razões que explicam por que ele é tão bom assim: todos os personagens são ótimos e muito bem desenvolvidos, mesmo aqueles que têm pouca participação, alguns você ama com todo o coração, outros você odeia com muito gosto, e alguns você acha que vai odiar e começa a amar ou vice versa. Em geral, há um consenso entre os leitores quanto a quais personagens se encaixam em cada um desses grupos, exceto por alguém em especial, de quem falarei mais à frente. Uma coisa é certa: Capitão Cardinal e Vi Moradi não serão facilmente esquecidos por quem lê, cada um por um motivo diferente, mas que, de certa forma, acabam se entrelaçando muito bem. O mesmo que eu disse dos personagens pode se dizer dos acontecimentos: tudo o que acontece no livro, tudo mesmo, tem um sentido, até mesmo o que parece que não vai servir para nada além de encher linguiça. Sendo bem honesta, encheção de linguiça é uma coisa que não existe nesse livro, principalmente porque, por acompanhar duas histórias ao mesmo tempo, quando você acha que vai cansar de uma, o livro corta para a outra. E, por incrível que pareça, isso não fica confuso, e eu digo com certeza que isso é porque foi escrito por uma escritora muito, mas MUITO, talentosa.

O maior mérito de Delilah S. Dawson com “Phasma”, na minha opinião, é conseguir matar o mistério sem matar o mistério. Explicando: o leitor irá desvendar o passado misterioso da Capitã Phasma e, ao fim do livro, ele continuará tão misterioso quanto antes. Talvez até mais misterioso ainda, considerando algumas coisas que não posso contar, para não dar spoilers. Esse feito mágico foi conseguido de uma forma bem simples; contar a história de um personagem como se fosse uma brincadeira de telefone-sem-fio, sem nunca aproximar a narração do dito personagem. Então, sim, você vai saber o que aconteceu com a Phasma, mas nunca vai ter a versão dela dos fatos, ou, pelo menos, quase nunca. Devo alertar que talvez isso te deixe com uma irritação sensacional conforme você lê, ao ponto de você ficar que nem eu e gritar “por favor, me mostra o que essa mulher está pensando ou eu vou ter um treco (ou pior, vou ter que inventar eu mesma)”.

Antes que alguém pergunte, sim, foi em fanfics muito longas e dedicadas que a minha história com esse livro “acabou”, porque “Phasma” me envolveu de tal forma que eu não consegui resistir. Ao final do último capítulo – o qual, por sinal, é o mais incrível, leiam e vocês vão entender por que – eu tinha mil e uma ideias de como aquilo poderia continuar, teorias que não me deixavam a cabeça e um amor imenso pela outrora stormtrooper de armadura brilhante e capa. Não me levem a mal, o livro é versátil o suficiente para que você escolha com propriedade qual dos personagens merecem os maiores méritos, mas, para mim, independente do que qualquer um diga, essa personagem é, com certeza, a própria Phasma.

Ela é aquela que alguns vão amar e outros vão odiar, mas, até mesmo por conta da história girar ao entorno dela, no fim das contas, é difícil ficar indiferente. Mas não se engane: a construção dela é feita para isso. Eu consigo entender quem odeia, visto que as atitudes dela são no mínimo controversas, mas ela é o tipo de personagem que mais me encanta na literatura: uma personagem complexa. Talvez nem todos percebam, mas eu acho importante pontuar o quanto essa mulher “virada no giraya” (como uma amiga minha bem definiu) é bem construída – imaginar as intenções dela é um tanto saboroso, porque ela é cem por centro imprevisível, e tudo que ela faz tem um motivo (veja bem, “motivo”, não “justificativa”). Tudo bem, para não dizer “tudo”, tem um fato que talvez não tenha, mas isso acaba só ajudando a construir a personalidade dela. Sobre esse tópico em especial, só digo uma coisa: “forte” é pouco para definir a Phasma. E é aquela força que você vê a cada momento que ela aparece, mas esbarra no que alguns consideram, na verdade, covardia. Não se engane; Phasma não é, nem de longe, uma boa menina. Mas, analisando criticamente, isso não significa dizer que ela não pode ter suas razões para fazer o que faz, e que não pode ser considerada uma mulher forte. Força existe tanto no lado “bom” quanto no lado “mau”, por assim dizer, e Phasma é uma prova disso, embora o livro deixe bem claro que as coisas em Star Wars estão longe de ser esse preto no branco chato de “bem” e “mal”.

Acho importante apontar também o quanto “Phasma” esbanja empoderamento feminino; embora uma parte importante da história seja focada em um homem, Capitão Cardinal, o destaque é, sem dúvida, para as personagens femininas. Todas são diferentes entre si, mas suas características se entrelaçam por tornarem-nas mulheres independentes, fortes e espertas. Além de Vi Moradi, cuja inteligência e compaixão ficam bem visíveis à medida que seu interrogatório corre, uma personagem do livro que acho que merece destaque é Siv, uma das guerreiras de Parnassos, que embarca junto a Phasma na aventura perigosa de levar Brendol Hux de volta a sua nave perdida. Além de ótima lutadora, Siv é um exemplo de empatia, podendo até se falar sobre sororidade nesse ponto, observando-se a forma como ela age diante de outras personagens femininas, e também de senso de justiça e moralidade. Um fato sobre o livro: a narração dos momentos de dez anos atrás relatados por Vi Moradi é focada em Siv, então o leitor está o tempo todo em contato com seus dilemas e conflitos, de forma que essas peculiaridades de sua personalidade ficam bem à mostra.

Além disso, o próprio modo de vida de Parnassos favorece o empoderamento feminino: mulheres e homens ocupam as mesmas funções, lutam igualmente e compartilham entre si de forma igualitária os frutos do que conseguem. O livro, no entanto, em diversas passagens nos lembra que existem lugares na galáxia em que as mulheres são tratadas com inferioridade, e eu pessoalmente notei, embora muito sutis, menções a assédio e/ou estupro em alguns pontos. Mas não é nada que deixe o livro impróprio para um adolescente, por exemplo, porque, para enxergar isso, é preciso prestar bastante atenção e ler nas entrelinhas.

E eu vou destacar novamente o quanto a verdadeira personagem principal do livro é bem construída, desta vez me focando no fato de ser uma personagem feminina forte: ela é mais que forte, e não cai no papel da mulher moral e justa que luta melhor que muitos homens, que embora seja igualmente representativo, já se tornou um pouco clichê na literatura e no cinema. Pensando na atriz que interpreta Phasma nos filmes, Gwendoline Christie (minha deusa, deixando claro), é fácil comparar Phasma com Brienne de Tarth, personagem de Gwendoline em Game Of Thrones; Brienne é uma guerreira honrada, leal e sofre por ser considerada esteticamente feia. Phasma é o completo oposto disso, sendo inclusive descrita como muito bonita no livro. Mas uma personagem como ela é igualmente importante para o feminismo. Que fique bem claro: não estou dizendo que Phasma é uma feminista, até porque essa terminologia como a conhecemos não cabe no contexto da história. O que eu digo com certeza é que uma personagem como ela mostra que a força feminina não precisa estar atrelada a bondade e compaixão, e isso certamente tem seu valor na ajuda ao movimento feminista.

Portanto, aos fãs que leram até aqui, digo com todo o coração: leiam “Phasma”, e leiam com a mente aberta. Aos que se interessaram, eu li em menos de dois dias. Vai ser uma experiência no mínimo interessante desconstruir algumas ideias sobre a Primeira Ordem, os stormtroopers, e, é claro, a própria Capitã Phasma. Para mim, foi incrível descobrir a história dessa mulher para lá de empoderada, sem escrúpulos nem papas na língua e tanto forte quanto humana. Esse lado humano da Phasma, que quase não foi mostrado, só em algumas situações sutis, porém marcantes, foi o que mais me fascinou no livro, e, juntamente com as coisas difíceis pelas quais Phasma provavelmente passou, mas o livro só deu pistas, me inspirou a escrever minhas fanfics e teorias sobre essa guerreira, que é, sim, incrivelmente importante para Star Wars. Aliás, acho que essa é a palavra que melhor a define. Penso na Phasma a cada vez que escuto “Warrior”, da cantora Nina Sublatti, que parece escrita para ela. Uma coisa sobre a Capitã Phasma é certa: ela sabe o que é, tem orgulho disso, e lutou – e muito – por cada pedaço disso tudo.

Phasma foi de “tatuada na minha curiosidade” para, literalmente, “tatuada no meu braço”. Junto com essa frase linda do livro dela.

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