Crítica | Kursk: A Última Missão

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Uma missão impossível num cenário trágico perante o descaso

Cartaz do filme Kursk / Paris Filmes

Um torpedo explodiu a bordo do K-141 Kursk durante um exercício da marinha russa em 2000, fazendo com que o submarino nuclear afundasse rapidamente no fundo do mar de Barents, a norte da Noruega. Aconteceu uma segunda explosão que acabou matando a maioria dos 118 marinheiros russos. Os 23 sobreviventes refugiaram-se nos compartimentos mais afastados e a dolorosa espera por salvamento, que por negligência russa, não chegou.

Dirigido por Thomas Vinterberg (A Caça), o longa é baseado numa história real e é narrado e produzido de forma muito comovente e humana. Esse submarino, Kursk, era um dos mais bem equipados e preparados feito durante a Guerra Fria, que pertencia à categoria Oscar II e fazia parte da frota do norte, a que sofreu com os cortes orçamentários ao longo dos anos 90, resultando na aposentadoria precoce de vários submarinos e embarcações de superfície. Devido à crise que se arrastava na Rússia nos anos seguintes até o fim da URSS, o Kursk fez apenas uma missão nos cinco anos que esteve a serviço da marinha, sendo enviado para o mediterrâneo por seis meses para acompanhar o trabalho da sexta frota dos EUA.

Nos primeiros 20, 30 minutos a trama nos apresenta os marinheiros se preparando para essa missão e os quão amigos eles são. É muito animador e bonito ver o entrosamento dos personagens que a todo momento expressam uma ligação de amizade muito real, muito fraterna e como aquela comunidade em si é muito amiga. Esses primeiros minutos exercem a função de nos conectar com eles, de saber quem são os personagens, como eles vivem e agem, de se importar com eles, de ver suas mulheres, filhos e famílias, nos dá a noção de quanto eles arriscam toda vez que eles embarcam numa missão. Com uma fotografia impecável, nos dá a sensação momentos aterrorizante pela cores frias e escuras. Um roteiro bem amarrado e uma trilha sonora que te arrepia a espinha de tanta tensão e desespero.

Momento em que eles começam a cantar a canção de marinheiro / Paris Filmes

Esse filme faz uma critica velada ao governo russo, curiosamente, Vladmir Putin, estava há quatro meses na presidência e durante o acidente, o presidente estava de férias e o longa não fez nenhuma menção ao Putin, deixando a entender que por mais critico que seja o filme e que em certas situações a gente saiba de qual lado esta, mostra também que não mencionar Putin, está em cima do muro. Mas podemos entender isso, na verdade o Kursk continha segredos militares que não podiam ser revelados e talvez seja por isso que demorou tanto para aceitar ajuda.

Esses suspense dramático é seco e direto. É um misto de emoções, você sente raiva e se desespera junto com os sobreviventes, definhando e tentando postergar incansavelmente o momento da morte e não apenas isso, assistimos ao desespero de suas famílias que brigam e lutam por noticias positivas ou não, acerca da tragédia que acabou matando 118 pessoas. O problema já começa quando um dos marinheiros responsáveis pela área dos torpedos, avisa que um dos projéteis explosivo auto-propulsionado está com a temperatura interna alterada, e a cada momento ela se altera e o rapaz pede autorização para despachar o torpedo que é negada, segundo o Comandante ainda tinham sete minutos até o momento de liberar o projétil, porém não dá tempo, segundo depois, acontece a primeira explosão.

Representação da divisão de marinhos por acoplamento. No total, morreram 118 pessoas que estavam a bordo. Foram resgatados 115 corpos dos destroços do submarino.

Essa cena é muito importante para os acontecimentos seguintes da narrativa. De forma crua e inesperada, a explosão acontece. Depois, uma segunda explosão acontece maior ainda, atingindo os compartimentos restantes. Os locais menos afetados pelas explosões são os acoplamentos 7, 8 e 9. Mas mesmo assim, não estão totalmente a salvo. Devido a grande quantidade de água que entra nos compartimentos, inundando tudo, a falta de energia e oxigênio. E a trilha sonora é algo que guia nossos sentimentos, é quase impossível não se deixar levar pelos momentos de tristeza, tensão e desespero. O acidente acontece nas primeiras meia hora de filme, e nas outras uma hora e meia, temos o desenrolar do resgate, que aparentemente podia ter acontecido com sucesso, caso o governo não enrolasse tanto. O governo Norueguês e Britânico ofereceram ajuda, porém de acordo com os russos, seus equipamentos eram suficientemente bons, capazes de executar um resgate com sucesso.

No entanto, no filme é visto que não, os russos não tem as mínimas condições técnicas para salvar a vida desses 23 sobreviventes e por mais que tentem salvar os companheiros a bordo do submarino, eles não conseguem. Seus equipamentos estão defasados e velhos. A única coisa que eles conseguem é ter ciência da gravidade do acidente. Vale ressaltar que, o comandante inglês quer ajudar, mas não pode fazer isso por iniciativa própria – ele não quer começar uma terceira guerra mundial -, ficamos com raiva, porque todo o governo russo em si, trata a situação de forma muito calma. As reuniões, as negociações e os diálogos demoram e não se resolve nada. O Capitão Tenente escreveu duas notas que confirmavam a quantidade de sobreviventes no submarino e apesar de ser dirigida à família, é a única prova existente de que houve 23 sobreviventes às duas explosões que destruíram grande parte do submergível.

“Está escuro aqui para escrever, mas vou tentar pelo tato. Parece que não há possibilidades, 10-20%. Vamos torcer para que pelo menos alguém leia isto. Cumprimentos a todos. Não há necessidade de ficarem desesperados.”

— Capitão-Tenente Dmitri Kolesnikov

Mas por que devo assistir?

Pois a história é comovente e tocante ao passo que a bela atuação de Léa Seydoux, Matthias Schoenaerts, Colin Firth e grande elenco passam a emoção por trás desse trágico acontecimento. É uma prova de coragem, amor, arrependimento… Mulheres que disseram aos seus esposos que o amavam pela última vez, filhos que brincaram com seus pais pela última vez, familiares que não tiveram a chance de dizer adeus. Uma oferta que poderia ter evitado a morte e o descaso que mostra que tudo é uma questão de poder. Não é um filme para os russos e sim sobre eles. Esse acidente foi notícia no mundo todo e tem o seu roteiro idealizado por Robert Rodat (O Resgate do Soldado Ryan), que tomou como base o livro investigativo A Time To Die de Robert Moore.

Com data de estreia prevista para o dia 09 de janeiro de 2020, Kursk: A Útima Missão leva 4 vidas de 5.

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