Resenha | As Vantagens de Ser Invisível

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E naquele momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos

Capa do livro “As Vantagens de Ser Invisível”, Rocco/ ed. 2007
 

São através das cartas que Charlie compartilha seu mundinho com o leitor. Não é um diário, é muito mais intimo que isso. São hilárias, estranhas – às vezes – e devastadoras. No decorrer da leitura descobrimos as impressões de Charlie acerca dos primeiro encontros, de dramas familiares, novos amigos, suicídio, depressão, abusos – muitos abusos-, sexo, drogas e a busca por aquela música perfeita. O roteirista Stephen Chbosky lança luz sobre o amadurecimento no ambiente da escola, um local por vezes opressor e sinônimo de ameaça. Uma leitura que deixa visível os problemas e crises próprios da juventude.

Já tinha assistido ao filme alguns anos e depois numa livraria acabei encontrando na prateleira o livro que virara filme em 2012. No papel de Charlie temos Logan Lerman (Percy Jackson e o Ladrão de Raios) que vive um garoto de 15 anos que está indo para o colegial em Pittsburgh e está se recuperando de uma depressão. Sam e Patrick são irmãos e a dupla que acolhe Charlie. São personagens muito intensos, especialmente Patrick. Sam é interpretada por Emma Watson que se distancia da bruxinha Hermione que viveu por tantos anos e Ezra Miller que apresenta uma de suas melhores interpretações, não é caricato e entrega um ótimo personagem, Patrick, Pat ou Nada. Logo de inicio vemos que Charlie não é um jovem comum. Ele tem seus dilemas próprios. Ele escreve cartas para ajudá-lo em sua recuperação. Parece que escrevendo ele foge dos problemas e consegue expressar seus medos, preocupações, desejos, ele consegue contar nas cartas o que não consegue falar. E a cada carta escrita e lida sabemos um pouco mais sobre a vida de Charlie. Descobrimos que ele sente um incomodo em relação aos pais e aos irmãos e sabemos que ele confiava em uma única pessoa: tia Helen, a melhor pessoa do mundo na visão dele. Ela morreu quando foi buscar o presente de aniversário dele e Charlie se culpa por isso.

Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim
No filme, Charlie é interpretado por Logan Lerman.

Charlie tenta se enturmar, mas parece que é muito difícil se socializar quando todos o acham estranho. E talvez por isso ele procure o grupo dos deslocados. E isso tem muito em comum conosco leitores. Quem nunca se sentiu um peixe fora d’àgua na escola, na faculdade ou em qualquer outro ambiente que não seja aquele que nos sentimos confortáveis? É uma incessante busca pela aceitação e no livro podemos perceber isso. E entendemos que essa busca, essa procura… Charlie tem traumas e nem mesmo sua família entende isso. Nós não sabemos qual o motivo de seu amigo ter se matado, mas sabemos que antes disso ele já tinha problemas. Talvez oi durante o tratamento que ele conheceu seu único amigo que o ajudou, mas que não conseguiu suportar o palco que é a vida. Mas por que um palco? Porque agimos como se fossemos atores, esperamos os aplausos. E quando não temos?

As Vantagens de Ser Invisível mostra que não conhecemos o que se passa na cabeça de uma pessoa, só conhecendo e vivendo com ela, que passamos a entender um pouco do universo dela. É muito interessante e real a amizade que ele tem com Patrick e Sam. E o mais encantador é que a trama costura a histórias de todos sem deixar Charlie de lado. Patrick é divertido e parece se bem resolvido, porém, entretanto, todavia, ele esconde do mundo a sua verdadeira natureza. Ele é gay. E tem uma relação meio conturbada com Brad, que esconde que é gay. Infelizmente, ele vive de aparências e posa de machão quando na verdade é alguém frustrado. Já Sam, é uma alma livre. Mas também tem seus dilemas. Ela assim como a tia Helen, como Charlie e como aquela garota que, no quarto de Charlie, durante uma festa foi estuprada, Sam também sofreu abuso. Só que ela reagiu de outra forma. Não digo que não foi difícil, mas ela tentou superar.

Cena em que Charlie está numa festa com Sam e Mary Elizabeth

A família também tem seu dilemas. A irmã de Charlie sofreu abusos também, diferentes, mas sofreu. Apanhou do namorado e ainda fez um aborto e nesse momento difícil contou com a ajuda de Charlie. O pai era filho de um homem que bebia muito e que batia em sua mãe e nele e por isso ele decidiu ser diferente. Charlie nos conta que seu pai não tinha o hábito de bater nele e entendemos o motivo. Tia Helen. Ela apanhou muito do pai quando pequena, foi estuprada e também sofreu violência nos seus relacionamentos, teve depressão e com ajuda de sua irmã, mãe de Charlie, conseguiu trilhar um novo caminho. E talvez por isso a gente se pergunte, “Se aconteceu tudo isso com ela, por que ela abusou de Charlie?”

Mas Charlie não se lembrava disso. Ele nutria um sentimento forte e intenso por Sam e quando eles têm um momento um pouco mais íntimo ele… Surta! Tudo o que tinha acontecido com ele, vem à tona. Ele relata no decorrer da trama que conversa com seu psiquiatra sobre perguntas que ele faz em todas as idas ao consultório e Charlie não entende o motivo dessas perguntas… Até o momento em que nós tomamos ciência do que realmente aconteceu. Quando Sam toca a sua perna, desencadeia todas as lembranças que estavam presas no seu subconsciente e ele se lembra de tudo… Seus amigos foram embora, seu melhor amigo se matou, sua tia favorita está morta e ele se culpa, ele está sozinho. E nessa trava solta ele se recorda. Sua tia abusou dele. Como alguém que ele mais amava pôde ter feito isso com ele? Aproveitou-se de sua inocência… A carga de um acontecimento desse é muito grande para suportar, imagine uma criança. Ele bloqueou, mas quando veio à tona, uma enxurrada de emoções tomaram conta dele e o pior, ele se questionou se ele queria que a morte da tia Helen tivesse acontecido.

A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim as emoções. As perguntas são:’onde dói?’ e ‘como posso ajudá-lo? – Dr. Edwin Schneidman

Bom se você assistiu ao filme e leu o livro certamente percebeu algumas diferenças entre ambas as produções. De inicio, vale ressaltar que as relações entre Charlie e sua família é muito mais presente no livro e no filme por mais que seja uma família unida, não é mostrado. O irmão de Charlie mesmo, não ganha tanta relevância assim. O professor Bill sempre faz criticas construtivas aos ensaios escritos por Charlie, mas no filme ele só faz elogios. O bullying que um dos temas mais comuns que todos já passaram ou passam no decorrer da vida é usado no filme para mostrar que Charlie está no fundo do poço na hierarquia social escolar. Mas no livro o enfoque é diferente, está relacionado as pressões sociais e a solidão. As festas não eram grandes e sim num porão, para poucos amigos. Nesse ponto, é chato porque faz muita diferença trocar The Smiths por Katy Perry. O efeito que tem no livro não é o mesmo ao que é apresentado no livro.

Cena em que Charlie se recorda de tudo

Mas por que devo ler?

Por ser uma adaptação, o filme tem a sua graça. É bem dirigido e nos faz querer aprofundamento e por isso buscamos ler o livro. O Charlie do livro é real, é palpável, é sensível. Ele está acima do clone do filme, que por mais que seja uma boa interpretação de Lerman, não é o nosso Charlie. Ele é capaz de muito mais. O nosso Charlie é instintivamente cordial e sua inocência e sinceridade bastam para que seja engraçado. Ele chora e isso o torna mais humano e faz com que quem leia o livro o queira bem, o queira defender. Ele é leal e verdadeiro. Ele entende as necessidades dos outros e por tudo que ele passou, ele aprendeu a ver o mundo de uma forma totalmente diferente. Ele é doce e gentil… um verdadeiro caos se escondia dentro por trás de tanta sensibilidade.

As Vantagens de Ser Invisível leva 4 “só mais um capítulo” de 5. A propósito, o Charlie do livro sabe que o segredo é avançar nos joelhos, na garganta e nos olhos. Boa leitura!

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