Crítica | Judy: Muito Além do Arco-Íris

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Não vão se esquecer de mim, não é? Prometam que não…

Judy Garland interpretada por Renée Zellweger / Paris Filmes

Com problemas financeiros e físicos, Judy deixa os filhos com o ex marido nos EUA e parte para Londres, onde fará uma turnê durante o inverno de 1968 a fim de reestruturar a sua atual situação. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os problemas que nunca a deixaram, o álcool e os remédios que compensam o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco.

É triste pensar e muito mais melancólico de ver uma atriz, cantora, dançarina e artista de vaudeville, considerada por muitos, uma das principais estrelas da “Era de Ouro de Hollywood” dos filmes e musicais, em decadência. Frances Ethel Gumm, ou melhor, Judy Garland, ficou conhecida após receber o Oscar juvenil por reconhecimento pela sua atuação em O Mágico de Oz. Quem imaginaria que aquela menina de 16 anos se tornaria um dos maiores ícones do entretenimento. Pois, bem. Ela com seu jeito único encantou multidões, mas por trás desse rostinho doce, havia uma menina infeliz e traumatizada pela glamour, pela fama, por Hollywood.

Judy Garland em O Mágico de Oz, em 1939 / Reprodução

Quem nunca quis ser rico? Famoso? Paparicado pela mídia? Judy Garland conheceu muito bem esse tratamento. No entanto, muitos não sabem como é nos bastidores, nem tudo são flores. Em Pigskin Parade, Judy roubou a cena e atraiu os olhares com apenas 13 anos na comédia-musical, isso não sendo a protagonista. A atriz já se mostrava uma grande cantora com uma das maiores extensões vocais já vista. Embora, em 1937, interpretasse a personagem Esther Blodgett na segunda versão de Nasce Uma Estrela, foi em 1939 que a atriz ficou conhecida como o rosto de Dorothy Gale e foi responsável por uma das versões mais conhecidas e marcantes de Somewhere Over The Rainbow ao estrelar O Mágico de Oz.

Toto, tenho a sensação de que não estamos mais no Kansas

 – Dorothy Gale em O Mágico de Oz

Em 1922 nascia Judy Garland ao mesmo tempo que o cinema falado se iniciava, a promissora atriz fez parte de uma cultura que visava o lucro e a beleza em detrimento do bem estar físico, mental e emocional dos atores. A atriz faz parte dessa “leva” que padecia nas mão das grandes produtoras e de seus diretores e empresários, quase sempre, homens reforçando que apesar de Hollywood estampar belos rostos em seus cartazes, era machista demais para colocar uma mulher em cargos importantes dentro dos grandes estúdios. No longa, vemos uma menina que trabalhava por muito tempo e que não teve uma boa vida que por sinal não se resume a conforto financeiro, vai além disso. Todos nós esperamos o afeto daqueles que estão a nossa volta, não é? Judy não teve isso. Foi abandonada por sua mãe que visava o lucro na carreira da filha. Infelizmente isso ainda é uma realidade. Lembra-se de Britney Spears? A princesinha do pop é uma das versões de Judy que temos no nosso presente. Ela assim como Judy, teve a guarda dos filhos retirada, teve problemas com álcool, sua apresentação no MTV Vídeo Music Awards em 2008 foi ridicularizada e com altos e baixos se levantou. Se prestarmos um pouco mais de atenção nos relatos de Judy, perceberemos que sua vida foi uma sucessão de acertos e erros.

Judy Garland antes de iniciar um show durante sua turnê em 1968 , em Londres / Paris Filmes

Existe uma conversa entre presente e passado quanto à maternidade na vida de Judy. Enquanto a menina que vemos nos flashbacks é sufocada para construir uma carreira de peso no cinema, a mulher de cabelos curtos e de aparência física frágil, não quer o mesmo para seus filhos, Lorna e Joey que se apresentavam com Judy em uma das cenas, nos primeiros 20 a 30 minutos do filme. Sem dinheiro, retorna a Londres, e em meio aos flashbacks, vemos a pequena Judy. Acostumada desde cedo a se esforçar muito, a tomar remédio para inibir a fome, pois deveria estar sempre bela. Remédios para retardar o sono, pois precisava passar horas a fio treinando e se preparando para tudo sair perfeito. Resultado? Lucro para os estúdios e traumas foram se desenvolvendo na vida de Judy. Vemos uma mulher que não come, que não dorme, que não é feliz. Ela conheceu cedo a pressão dos empresários que depreciaram sua estrada de tijolos amarelos e acabaram moldando uma menina com infância corrompida e que com um pouco mais de 40 anos luta para não perder os filhos. Trunfo que o diretor Rupert Goold consegue deixar evidente na construção de uma narrativa cercada de dores enraizadas na interprete de Dorothy Gale.

Viciada em álcool e barbitúricos, Judy Garland é uma sobrevivente do descaso da indústria cultural. Que anos depois fez outras vítimas, entre elas Marilyn Monroe e Elvis Presley que também ingeriam essas substâncias a fim de driblar a ansiedade, o estresse, a insônia, enfim, os problemas derivados de ser uma pessoa pública em Hollywood. Quinze anos antes de Judy tentar se reerguer com a turnê em Londres, Frank Sinatra dava as caras após vencer o Oscar de melhor ator coadjuvante “A Um Passo da Eternidade” (1953). Depois de ter passado por problemas financeiros e de saúde, cantor foi recebido de portas abertas por uma sociedade muito mais condescendente com suas figuras masculinas. Ironicamente Frank Sinatra foi citado na trama. Mas foi no palco que pudemos ver quem foi de fato Judy Garland. Sempre atrasada e exausta, por outro lado,  se empenhava nos palcos. Em uma das cenas ela dança e canta maravilhosamente bem. Em outras é desbocada e se apresenta sem o mínimo controle para tal. A cena é tão perplexa que temos a impressão de ver Amy Winehouse diante de nossos olhos. Com um olhar vazio, com uma mente bagunçada e um andar cambaleante, Judy mal consegue se apresentar e é ridicularizada, caindo mais uma vez. Não é apenas um tombo no chão, é uma queda também na carreira. Novamente.

Todo mundo tem os seus problemas. E eu tive os meus.

Judy Garland e Renée Zellweger / Paris Filmes

Judy: Muito Além do Arco-Íris não é sobre a vida, a história de Judy e sim sobre os momentos finais de sua turnê em Londres. Era uma mulher de muitos maridos, no total cinco casamentos, os quais começavam rápidos demais e terminavam mais rápidos ainda. Foi o preço por o qual ela pagou. Embora tivesse o companheirismo da banda e da assessora/empresaria, tal esforço dependia mais de Judy do que qualquer outro que quisesse ajudá-la. No fim, o que vemos é uma mulher que não queria ser esquecida e depositava no seu público, o afeto que precisava. Mãe de Liza Minnelli, em 22 de junho de 1969 é encontrada morta após uma overdose acidental, aos 47 anos. Na trama, podemos ver que não é retratado esse momento que teve como referência uma nota. No final de tudo, Judy é uma saudação a uma grande estrela, sem mascarar seus problemas, o que deixa claro seu fim decadente. Ao mesmo tempo em que refresca a nossa cabeça com histórias com desfechos similares que a grande Hollywood produzia, projetava em suas iscas o lucro a fim de satisfazer a indústria fazendo que cada um deles tivesse suas vidas negligenciadas, esquecendo que por trás da pessoa pública existia um ser humano.

E se eu não conseguir fazer de novo?

– Judy : Muito Além do Arco-Íris

Mas por que devo assistir?

É tocante, emocionante e comovente. Inacreditável como o mundo do glamour pode ser sujo. E Judy foi o “comeback” perfeito para Renée Zellweger que estava afastada das telonas. É estupenda a interpretação de Zellweger. O impacto de sua caracterização é tão grande que é muito difícil de distinguir a personagem da atriz. A trama em si tem um figurino e uma trilha sonora muito eloquente que comove e que carrega a emoção que não apenas a interpretação e o roteiro querem passar diante de uma história de vida sofrida. A fotografia é impecável e nos leva a refletir a cada cena bem costurada. Embora Rupert Goold tenha se baseado na peça de teatro “End Of The Rainbow” de Peter Quiltter, o filme não parece uma peça filmada, muito pelo contrário, é tão bem feita que é impossível não se emocionar. Infelizmente, a vida decadente de uma das maiores figuras do cinema hollywoodiano serviu de palco para engrandecer outra atriz, que também é um produto da máquina de desfazer sonhos que a própria Judy Garland presenciou e nela sucumbiu.

Judy: Muito Além do Arco-Íris não destaca apenas uma história comovente ou uma direção muito boa e sim uma interpretação real e um retorno surpreendente e por isso leva 3,5 vidas de 5,0.

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly
And the dreams that you dream of
Dreams really do come true

– Somewhere Over The Rainbow

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